sexta-feira, 29 de julho de 2011

D.D.A.

Na adolescência, meados da 5ª série, eu e os amigos Demétrios e Alex decidimos fazer um grupo de teatro na escola. Como o ego já mandava desde então, batizamos o grupo com as iniciais de nossos próprios nomes (o significado da sigla foi posteriormente modificado para "Departamento Dramático-Artístico" por sugestão sensata do secretário José Farid). Eu era o dramaturgo da Companhia. Alex era o diretor. Demétrios, cômico por natureza, era o ator principal. O elenco, a princípio, era inteiramente formado por losers da escola. Gente como a gente.

Depois, vencidas as primeiras barreiras da timidez, começamos a elaborar as nossas peças. Seriam apresentadas no pátio da escola, para todo mundo. Eu e Alex também reforçávamos o elenco. A professora de artes liberava o horário das aulas para ensaios. Fazíamos de tudo um pouco: de enredos policiais a comédias burguesas, passando pelas sofríveis e obrigatórias peças temáticas para datas comemorativas. Certa vez, na aula de português, caiu em nossas mãos um trecho da Farsa da Boa Preguiça, do Suassuna. Sem hesitar, tratamos logo de elaborar uma adaptação para os "palcos". Foi a glória. A essa altura, o elenco já estava maior e mais diversificado. Nerds contracenavam com valentões. Os caxias com as meninas bonitas. Todos queriam participar, todos queriam ensaiar. Todos queriam uma boa desculpa para sair no meio da aula.

Quando acabou o ginásio, cada um foi para um canto. Ainda fizemos alguns esforços para manter o grupo unido e isso resultou em boas apresentações. Mas uma hora tinha que acabar. E acabou. Lembro-me de ter abandonado o barco antes mesmo dele afundar. E nem sei porque fiz isso. Eu adorava aquilo.

Modéstia à parte, éramos bons. Não tínhamos um pingo de orientação, suporte profissional ou acompanhamento pedagógico. Ninguém que canalizasse nossa energia para o caminho certo. Não tínhamos sequer referências teatrais (diretores, autores, obras ou conhecimentos de técnicas elementares). Nada. Tínhamos apenas boa vontade e muita criatividade.

Após abandonar o D.D.A., fiquei alguns anos no limbo até o destino generosamente me devolver ao teatro. Na graduação em artes cênicas, anos depois, foi inevitável a decepção. Lá, em meio a tantas cabeças pensantes, encontrei tudo o que eu precisava: orientação, conhecimento, técnica e crítica. Encontrei tudo, menos vontade. Ninguém tinha lá muita vontade. Aquela energia parecia ter ficado no ginásio. Na minha velha escola. Na escola dos companheiros de cênicas que, certamente, tinham histórias parecidas com a minha.

Certa vez, o pedante e acadêmico Daniel, no alto de seus vinte e poucos anos, foi ver uma peça no Teatro Zaqueu de Melo, perto da sua antiga república. Para sua surpresa, aquele O Auto da Compadecida era feito inteiramente com crianças. E era ruim. Saí de lá com a cega certeza de que criança não sabe fazer teatro.

Três anos depois, para faturar alguns trocados, monitorei uma oficina de palhaços junto com a amiga Carol Di Deus numa escola da periferia. Evento promovido pelo Festival Internacional de Londrina. Foram dias terríveis. As crianças eram incontroláveis, endiabradas, agressivas. A cada nova aula, com a sala de pernas para o ar, entorpecido pela gritaria e recolhendo os objetos constantemente quebrados, eu tinha a impressão de ouvir aquela música que Danny Elfman fez para o tema de Gremilins.

Um dia expulsei um menino da sala. Segundo a coordenadora da escola, eu não podia ter feito isso. Mas fiz. Não demorou um segundo para sentir a reação do menino: uma pedra estilhaçou o vidro da janela da classe e passou zunindo pela minha orelha. Durante muito tempo levei chutes, cuspes e ofensas pra casa, mas creio que o episódio da pedra foi o mais marcante.

E quando eu estava prestes a reiterar a máxima "isso não é coisa de criança", algo mágico aconteceu. Sim, gosto de dar algum significado místico para isso: Carol e eu conseguimos montar um mini-espetáculo circense com os meninos! Não era a oitava maravilha do mundo, mas eles gostaram. Para nós, uma vitória.

A toda poderosa diretora do Festival Internacional de Londrina deu a honra de sua presença no dia do encerramento e, ao final da apresentação, com a frieza que lhe era característica, atirou sua profunda visão crítica em nossas caras: "não deu pra sentir a potencialidade da oficina".

O destino não me devolveu ao teatro por acaso. Pieguice à parte, havia um encontro marcado com aquele jovem dramaturgo e sua energia adolescente. Um reencontro com aquela vontade antes perdida. Naquela mesma época, durante oficina com Luiz Carlos Vasconcelos, fiz amizade com pivetes do bairro que, por alguma razão obscura, foram com a minha cara. Eles riam das minhas bobagens e eu me surpreendia. Sim, eu tinha afinidade com crianças! E descobri que a recíproca era verdadeira.

Gosto de relembrar esses pequenos episódios porque entendo que são parentes ancestrais do Núcleo. Nada foi planejado. Eu apenas tropecei nos fatos e caí aqui, numa companhia de pesquisa e produção teatral formada por crianças e adolescentes. Feliz, não troco esse grupo por nada. Só lamento não ter surgido uma segunda oportunidade para aquela respeitável diretora avaliar a chamada "potencialidade dos meninos".

Levei os pequenos atores do Núcleo para assistir a O Auto da Compadecida, em 2009, no clube de Iracemápolis. A peça vinha de fora, grupo respeitável, e prometia. Por fim, afora o riso pastelão, pouco sobrou para contar a história no caminho de volta. Era uma adaptação com adultos, escabrosa, indigna, das piores que já vi. Os meninos reprovaram os atores. Foram implacáveis em suas críticas. E eu, com a cabeça nos distantes parceiros Demétrios e Alex, saí de lá com a triste impressão de que adulto não sabe fazer teatro.

1 comentários:

Anônimo disse...

Saudades... Não encontrei outra palvra se não esta para descrever tudo o que senti ao ler este post. Valeu Daniel por me fazer lembrar quem nós fomos e quem eu sempre sonhei em ser. E para completar o que você disse por ultimo, adultos podem até não saber fazer teatro, mas crianças adultas sim. Abraços!!!