Ontem eu e a Rose passamos na casa do velho Shira para pegar uns DVDs emprestados e nos deparamos com seu invejável acervo musical distribuído pelas prateleiras do quarto. Enquanto recolhíamos desesperados nossa saliva, conferimos velozmente um pouco da coleção, já que era noite de domingo e ainda nem havíamos jantado. Infelizmente tivemos que abreviar a visita, e deixamos seu Quartel General com a promessa de um happy hour em breve.
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Mais supreendente ainda foi abrir seu blog aqui em casa e descobrir que o Shiraga, assim como eu, também bateu em um carro parado! E o fez na mesma sexta-feira que eu! A diferença é que ele bateu para desviar de outro carro, enquanto eu estava simplesmente pensando na morte da bezerra.
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Já faz alguns dias que Shira publicou um artigo em seu blog falando das impressões que trouxe durante a última sessão de Macbeth. Foi um dos poucos que escreveu sobre nosso trabalho com um olhar crítico, já que a maioria dos textos publicados sobre o Núcleo são meramente informativos. Além dele, destaco o artigo do mais que velho e saudoso Biajoni e a análise do amigo e reverendo Flávio Gouvêa, além das incursões poéticas dos irmãos Renato e Terto Evangelista.
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É com grande prazer que reproduzo aqui o texto do amigo Fábio Shiraga. Sem palavras para agradecer. Salve, Shira!
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ESTA VIDA É UMA SINFONIA AMARGA
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Em uma noite fria de domingo, fui a Iracemápolis assistir a uma peça de Shakespeare, encenada por crianças de 8 a 12 anos. Fui a convite do diretor Daniel Martins, que há pouco levou esses meninos para o Festival de Teatro de Curitiba, onde fizeram duas apresentações com a casa cheia, o que lhes rendeu uma apresentação extra no respeitado festival.
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Quem recebe o público na entrada é um destes meninos, que, com um ótimo tom de voz e uma dicção perfeita, manda um aviso e me deixa pensando por cinco minutos, enquanto entro no espaço escuro e me acomodo esperando o início do espetáculo.
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"Senhoras e senhores!
Antes que continuem seguindo viagem, peço um momento de atenção para lhes contar uma história terrível: Macbeth, a tragédia escocesa. Por favor, não repitam esse nome tão alto, pois traz má sorte.
Se os senhores se perguntam por que crianças tão pequenas contam uma história tão trágica, eu respondo: é para mostrar a vocês o preço da ganância, da mentira e da traição. A vilania, meus senhores, é a marca da maldade e contra ela a lealdade, bem sabemos, é um santo remédio. Aonde pode chegar o homem na sua sedenta e incontrolável busca pelo poder?
Ao passarem por esta porta, os senhores verão uma das mais terríveis tragédias já feitas. Sejam bem-vindos. E que Deus tenha piedade de nós."
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Eu nunca li nada de Shakespeare, não sabia nada de Macbeth, e não me orgulho disso. Mas não foi envergonhado que aprendi e me surpreendi, por mais que tivessem me avisado antes, com a atuação desses grandes meninos. Foi um enorme prazer saber que pequenos tão talentosos me ensinaram lindamente sobre essa obra e também me fizeram sair da escola onde se apresentaram com um nó na garganta pensando nesta vida fora de equilíbrio.
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Muito bem equilibrada é a trilha sonora que Daniel Martins preparou para a peça. Daniel explica a licença poética de escolher músicas que fogem da época da obra escrita. Eu achei que todas as músicas estavam muito bem colocadas ali, e é um grande barato flertar com o moderno, assim como fez Sofia Coppola em Marie Antoinette, colocando a linda Kirsten Dunst atuando ao som de bandas como Strokes e Cure ao fundo.
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Um pouco antes do final da peça, ouvimos "What a wonderful world", com cenas leves, que tiram sorrisos do público, para então no final, enquanto o Bobo da Corte diz que vale a pena acreditar no homem, os atores (fora dos personagens) nos lembrarem das tragédias ocorridas nos últimos anos.
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As mais de cem pessoas que lotaram a escola aplaudiram de pé essa última apresentação de Macbeth feita pelos atores mirins cheios de futuro. Daniel, o responsável por tudo isso, em grande estilo captain, my captain, subiu na cadeira para aplaudir os meninos. Demais!
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Só pra lembrar, há menos de um mês uma menina de 8 anos foi baleada em Rio Claro, mas vi uma matéria na TV em que a mãe da menina disse ter doado todos os órgãos da filha. Vale a pena acreditar no homem.
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Fábio Shiraga é professor de inglês e ouve muito mais os Beatles do que os Rolling Stones
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FONTE: SHIRAGA, Fábio. Esta vida é uma sinfonia amarga. In: Gazeta de Limeira. Ano 79. no. 15.808. 18 jun. 2009. Idéias em debate. p. 11.
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3 comentários:
A tua caixa de comentários pede uma verificação de palavras. E a palavra aqui é TRISTE.
Interessante porque apesar de triste, esta palavra é um tanto inspiradora, não é?
Agora, sem divagar:
Daniel, meu caro!
Demais, demais, demais estas últimas semanas em que estamos em contato. Tanta coisa boa acontecendo e eu tenho certeza que nada disso é por acaso.
Valeu!
Grande abraço e o happy hour tá de pé! ;-)
olha olha que eu achei por aqui! :* não vamos mais nos perder! saudades!
Oi, Daniel! Obrigada pela visita e pelo comentário no meu blog. Espero poder disponibilizar o link pra minha tese assim que der. Mas adorei sua iniciativa! Não tive tempo de ver a peça inteira que seus alunos montaram, só a primeira parte no YouTube, mas fiquei muito admirada com a qualidade (interessante como vcs fizeram Banquo e Macduff serem a mesma pessoa. Realmente dá pra fazer isso! Mas vai aparecer o fantasma de quem no banquete?). Olha, gostaria de te convidar pra escrever um guest post sobre o assunto. Sobre o seu projeto de montar "obras de adultos" com crianças, as pressões que vc enfrentou por conta disso, toda a questão da violência... Seria ótimo, se vc pudesse.
Abração, e meus parabéns pelo trabalho!
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