terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Por uma Trilha Anacrônica

Barry Levinson, durante a produção de Good morning, Vietnam (1987), foi informado por seu consultor musical, Alan Manson, da existência de uma pequena incoerência em seu filme: durante uma longa seqüência de cenas, em que são retratadas as mais diversas formas de violência no Vietnã, a montagem é acompanhada de "What a Wonderful World", música tocada pelo reacionário radialista Adrian Cronauer naquele preciso momento da trama. Não é necessário dizer que a trilha selecionada por Cronauer (o fictício, não o real), seria um contraponto irônico que Levinson traz em seu filme - diante da carnificina das imagens, a voz de Louis Armstrong canta um "mundo maravilhoso".
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Mas onde está a incoerência? Ora, no entender de Manson, haveria uma pequena barreira cronológica nessa montagem, posto que o filme se passa entre 1965 e 1966, e a gravação de "What a Wonderful World" é de 1967. "Estamos um ano, um ano e meio adiantados", ele argumentou. Veja a resposta de Levinson: "Essa é uma das vezes em que temos que tomar liberdades, porque isso funciona tão bem que o fato de estarmos um ano, um ano e meio adiantados não importa".
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Mesmo tendo tomado conhecimento tão tardiamente das "liberdades" de Barry Levinson, creio que já partilhava inconscientemente das mesmas licenças poéticas do diretor. Em O Mágico de Oz - a imaginação no poder, optei por localizar a trama no ano de 1968 (momento de intensas transformações políticas, sociais, musicais...), há exatos quarenta anos do tempo de nossa montagem. Ali você encontrará "With a Little Help from my Friends", dos Beatles, ou "God Only Knows", dos Beach Boys, músicas que caracterizam esse recorte temporal de modo preciso. Outras, entretanto, não acompanharam essa preocupação histórica de modo tão fiel: "Going to California", do Led Zeppelin, e "Time", do Pink Floyd (senhores jurados, como poderia eu abrir mão do Pink Floyd?), já adentram a densa selva que comumente chamamos de anos 70.
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Mais do que uma fidelidade sepulcral à década almejada, eu planejava resgatar o espírito que atravessou aquele período. Se fui feliz, não sei. Mas aboli toda e qualquer balada iê iê iê da primeira metade dos anos 60, assim como proibi a entrada de hits-discotecas, tão comuns a partir de meados de 70. Em Oz, só me interessava o bom e velho rock n' roll psicodélico, independente do ano exato em que havia sido lançado. (Tudo bem, eu confesso, a versão de "Good Vibrations" tocada na abertura da peça é a gravação solo de Brian Wilson, mas só a Jiúlia percebeu isso...)
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Na mesma trilha de pensamento, A Casa Verde contava com um repertório invejável de Adoniran Barbosa, Chiquinha Gonzaga (não entrou de última hora), Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Pixinguinha e toda a sorte de chorinhos e sambinhas, além dos distoantes Raul Seixas, Hermeto Pascoal, Ronnie Von e Mutantes. É certo que algumas barbaridades foram cometidas (A "casa verde" a que se refere a letra da música é, obviamente, o bairro paulistano e não o hospício machadiano), mas garanto que passaram despercebidas ao mais atento dos ouvidos da platéia. Agora me pergunte se toda essa ordem de sambistas, seresteiros, roqueiros, tropicalistas e músicos experimentais viveram a época de Simão Bacamarte. Viveram? Claro que não. Viveu Machado o suficiente para ouvir falar em qualquer um deles? Tampouco.
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Sem a "liberdade" defendida tão naturalmente por Levinson, a trilha de Macbeth seria composta tão somente por Himnodias, Salmodias e cantos gregorianos. Todavia, graças ao bom Deus, lá estão Thom Yorke, Laurie Anderson e Richard Ashcroft convivendo harmoniozamente com Mozart, Vivaldi e Bach. O teatro torna possível essa anacronia. (Mas cuidado com o que vai fazer, por Deus! Todas as coisas lhe são lícitas, mas nem todas lhe convém...)
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Devo acrescentar um toque pessoal a tudo isso e confessar que, quando se é jovem (não é mais o meu caso), a música exerce um papel essencial em nosso trajeto imaginário. Ao olharmos no espelho e nos depararmos com uma pequena réplica de Rob Fleming (ou Gordon, que seja), a música ganha uma instância de primeira grandeza em nossa vida. Por meio dela, nos tornamos o vocalista imaginário de uma banda-indie, o sagaz explorador de selvas de pedra ou o homem cool num mundo ainda mais cool do que pode nosso sonho alcançar. E assim voa a nossa mente até que nos tornamos velhos demais para isso.
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Porém, antes que eu envelhecesse de vez, essas crianças surgiram em meu caminho. E me ensinaram que a música não precisa pertencer somente a um terreno imaginário. Ou que as imagens que acompanham cada som não precisam ficar necessariamente presas aos nossos sonhos. Elas podem ser reais. E são. Nossos espetáculos são a imagem viva e concreta de cada som ali tocado.
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No último natal, presenteei cada pequeno ator meu com a trilha sonora de sua respectiva peça. Os habitantes de Oz ganharam CDs duplos cheios de Rock n' Roll e os escoceses medievais foram contemplados com CDs duplos de uma mistura saudável de música clássica, eletrônica e rock alternativo. Fizeram festas e encheram-se de lágrimas! Já vivi muitos momentos compensadores depois que comecei a fazer teatro com eles - a exibição do Macbeth de Orson Welles ou a leitura de "O alienista" para uma platéia atenta e ávida de não mais de 12 anos, por exemplo -, mas eu afirmo que nada foi mais compensador do que a audição de nossas trilhas em 2008. Anacrônicas, sim, mas também eternas.
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E então, depois de materializar tudo isso, me dou novamente ao luxo de sonhar. E sonho com Douglinhas ouvindo Simon & Garfunkel em sua casa, sonho com Hanninha escutando a música do Led Zeppelin que ela tanto gosta, com Cleitinho curtindo um Raul e com a minha pequena Gabi ao som de "What a Wonderful World". E não sem uma ponta de aborrecimento, Jiúlia ouve "Good Vibrations" em seu CD. Ela, que foi a única que percebeu que a versão que tocava em nosso espetáculo não era dos Beach Boys...
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