sábado, 7 de novembro de 2009

Fortuna Crítica 13

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MOSTRA FECHA TEMPORADA DE CURSOS DO CEAC
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No próximo dia 13 de novembro, sexta-feira, o Centro de Educação, Artes e Cultura Profa. Jane Cosenza irá sediar a 3ª Mostra de Teatro de Iracemápolis. Promovida pela Secretaria de Cultura, a Mostra tem por objetivo apresentar os trabalhos de conclusão do curso de teatro, encerrando o ano letivo de 2009.

Participam da Mostra duas peças do Núcleo de Vivência Teatral, projeto que realiza produções cênicas de qualidade com crianças e adolescentes de Iracemápolis, e que neste ano contou com o apoio da Prefeitura Municipal.
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A grande atração do festival será a estréia do espetáculo A Hora e Vez de Augusto Matraga, baseado num conto de João Guimarães Rosa. A peça narra a “estória” do fazendeiro Nhô Augusto, homem bárbaro e cruel que, após sofrer uma emboscada e quase perder a vida, transforma-se em santo penitente e arrepende-se dos seus pecados. “Fazia dois anos que eu e as crianças queríamos montar esse texto, mas eu sentia que ainda não estávamos preparados. Agora chegou a nossa hora e vez”, brinca o diretor da peça Daniel Martins, que coordena as atividades do Núcleo.

Para Martins, a responsabilidade de encenar Guimarães Rosa é o que mais pesa num momento como este: “Ao contrário do que muitos pensam, Guimarães Rosa não é ‘bang bang’. Guimarães Rosa é, na verdade, um mergulho no fundo da alma. É preciso entender isso.”, explica. A Hora e Vez de Augusto Matraga será representada no CEAC nos dias 13, 14, 20 e 21 de novembro, sempre às 20h30.

Além de Matraga, a Mostra de Teatro conta com uma atração especial: a tão aguardada reestréia de Macbeth, de William Shakespeare, também com direção de Martins. O espetáculo que representou a região no Festival de Curitiba e ganhou o público Iracemapolense nas atividades comemorativas do mês de maio finalmente volta à cena com nova produção e figurinos.

“Nós já tínhamos feito uma pré-estréia em outubro na Faculdade Anhanguera, em Limeira. O público adorou.”, afirma o ator Matheus Barreto, de 11 anos, referindo-se ao Seminário de Letras e Pedagogia da FAC Limeira, onde o grupo esteve se apresentando recentemente. “Fizemos um ensaio outro dia, pra ‘desenferrujar’. Foi muito bom. Mostrou que, apesar de todo esse tempo, ainda estamos afiados.”, confessa a atriz Daniela Soares, um dos destaques da peça.

Macbeth tem duas datas marcadas para a Mostra de Teatro, nos dias 27 e 28 de novembro, também no CEAC, às 20h30. Para ambos os espetáculos, a entrada é franca. A retirada de convites poderá ser feita no CEAC a partir de terça-feira.
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FONTE: Mostra fecha temporada de cursos do CEAC. In: Gazeta de Iracemápolis. Ano 7. No. 159. Iracemápolis, 07 nov. 2009. p. 4.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Em Breve

Vem aí: A Hora e Vez de Augusto Matraga. O novo espetáculo do Projeto Núcleo de Vivência Teatral. Baseado na obra de João Guimarães Rosa.
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Estréia: 13 de novembro de 2009, às 20h30. No CEAC Profa. Jane Cosenza, em Iracemápolis. Entrada Franca.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O Pão e o Circo

Bebida é água. Comida é pasto. Você tem
sede de quê? Você tem fome de quê?
Ainda me lembro das palavras do velho professor Joaquim Carvalho, respeitável veterano do curso de Letras Vernáculas e Clássicas da UEL: “Arte não tem utilidade. Quer fazer algo útil? Vá plantar feijão.” Falou assim, tranquilamente, sem cerimônias, no meio de uma aula. Arregalei os olhos. Aquilo me assustou.

No mesmo instante tratei de buscar nos arquivos da memória exemplos que contra-atacassem aquela heresia. Minha cabeça passou por muitas coisas – por musicoterapia; por documentários e livros educativos; por Doutores Alegria, fazendo palhaçadas em quartos de hospital. Não fosse ele meu estimado professor, certamente teríamos brigado; e eu despejaria em sua aula uma lista completa de projetos, leis, números e argumentos que provassem o quão útil era a arte. Se não existe utilidade, pra que serve a minha profissão? O que é essa tal de “Arte-Educação” que define toda a natureza do meu ofício até hoje?

Em meio a uma crise de vocação – tão comum nos meus anos universitários –, ao desabafar com um amigo sobre a serventia duvidosa do meu trabalho, tive como resposta a clássica frase que ecoaria em minha mente repetidas vezes: “Existe o pão e o circo. Você é o circo.” Maldito amigo. O que era para ser um consolo tornou-se um trauma, uma frase odiosa que me perseguiria nos anos futuros.

Era isso então? Eu não passava de um entretenimento, uma comédia para distrair as massas, um artifício dispensável diante das necessidades básicas que movem o ser humano? Isso tem o seu fundo de verdade. A cultura, na lista de prioridades do nosso país, sempre foi o último cara da fila – tristeza que, em certo peso e medida, não deixa de ser compreensível: é preciso investir fartamente em segurança, alimentação e saúde. Que governo, em sã e limpa consciência, não colocaria essas áreas como pilares essenciais de sua administração? É bem verdade também que o principal pilar de todos ainda é a Educação, e que a fronteira desta com a Cultura sempre será tênue e imprecisa.

No entanto, o problema é muito maior do que aparenta, e ultrapassa meras questões de pastas e investimentos. Afirmar que arte não tem utilidade era o mesmo que rasgar e destruir todos os meus anos de estudo, todas as minhas leituras e experiências. Todas as minhas noites acordadas, pensando no próximo espetáculo a fazer, no próximo conto a escrever. Essa era a minha amarga interpretação daquelas palavras do velho Joaquim.

Demorei a perceber que meu professor estava certo. Tempos atrás, mirando a minha “inútil” coleção de CDs, organizada alfabeticamente no armário do quarto, pousei os olhos sobre os Titãs e, quando dei por mim, já estava ouvindo a faixa “Comida”. Talvez tenha sido ali, com a voz de Arnaldo Antunes, que compreendi pela primeira vez que a vida vai muito além de nossas “necessidades básicas”, que a trajetória humana não se resume a trabalho, moradia e sexo. E que nessa imensa seara de reprodução e sobrevivência, persiste heroicamente a mais antiga e indispensável de todas as inutilidades já inventadas pelo homem: a arte.
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Essa é a contradição fundamental da obra de arte – ela não serve para nada, mas ninguém pode viver sem ela. Pouco adiantaria ter argumentado com o Professor Joaquim, oferecendo exemplos de como a arte é útil ao desenvolvimento do ser humano na educação, na saúde e afins. Ele estava interessado em outras coisas: na arte simultaneamente inútil e indispensável que figura nas prateleiras de discos, nos cartazes do cinema, nos quadros da parede. Aquela arte que impera não pelo desejo ou pela necessidade do homem, mas por sua vontade. Faz um tempo que cansei de brigar, provando a importância do meu trabalho. Cansei dos números, dos dados, das estatísticas. Não quero ser útil, mas essencial. Ao menos hoje, eu quero ser o circo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Absurdo

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Saiu!!!!!! O segundo livro já se encontra disponível nas melhores livrarias do ramo! Como é o segundo, fico dispensado de plantar uma árvore ou ter um filho.
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Quando publiquei Medéia nas malhas do tempo, em 2006, o fiz mais numa postura de resignação do que de satisfação. O livro tinha (tem) inúmeros problemas, de linguagem, de organização, de estruturação, etc. Autorizei a publicação, ainda que com uma certa pontinha de descontentamento.
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Agora, com Um mundo depois do fim do mundo (2009), a história foi definitivamente outra. Dar vida a este livro foi um parto. Começou com a pesquisa, ainda no mestrado, em meados de 2003. O trabalho foi defendido em 2005 e enviado à editora meses depois, como proposta de publicação. Reescrito em 2006, no centenário de Beckett, o texto passou por pareceristas internos e externos, diversas reuniões e afins. Foi aprovado e enfrentou novas revisões, modificações e adaptações. Deveria ter saído em 2008, pegando carona no centenário de Guimarães Rosa. Problemas diversos adiaram seu nascimento.
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O livro era como Godot, a promessa que nunca vem.
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Mas agora saiu! E está tão bonito. Sim, sou um pai coruja. Eu recomendo. Curiosamente, este ano estou montando Guimarães Rosa (com o Núcleo de Vivência Teatral, de Iracemápolis) e Samuel Beckett (com a Cia. Pêlo de Gato Preto, de Limeira). Por mais que eu tente fugir, esta dupla me persegue. Dupla absurda.
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Se um dia eu tiver coragem de me aventurar num terceiro texto teórico, será certamente sobre o teatro com crianças. Não sei se vou ter pique. Está tudo na minha cabeça. Difícil é materializar as palavras. Se der certo, fico dispensado da árvore e do filho.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

biografia cinematográfica

O filme que conta a História da minha vida começa in media res. Precisamente, numa apresentação do Auto da Compadecida, feita com crianças, em Londrina, durante meus anos universitários. Seguindo a insólita indicação de um professor, compareci com um amigo ao Teatro Zaqueu de Melo para conferir de perto a adaptação da obra de Suassuna. O ano deveria ser 1999, e me lembro que saí antes do término do espetáculo, plenamente convencido de que teatro não era coisa para criança.
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O filme que conta a História da minha vida termina em suspenso. Precisamente, numa apresentação do Auto da Compadecida, feita por adultos, em Iracemápolis, na época em que eu dirigia o Núcleo de Vivência Teatral. Aproveitando a rara ocasião de uma peça em Bate-Pau, interrompi os ensaios de Guimarães Rosa e levei meus alunos para assistir à adaptação da obra de Suassuna realizada por um grupo de Ribeirão Preto. O ano era 2009, e me lembro que permaneci forçosamente até o final do espetáculo, plenamente convencido de que teatro não é coisa pra qualquer adulto.
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O filme que conta a História da minha vida começa depois do começo e termina antes do fim. Entre uma e outra apresentação do Auto, se desenrola a minha vida, e os passos que me levam a mudar drasticamente minha maneira de pensar. Não sei qual das duas apresentações foi pior. Nem qual das duas foi melhor. Mas sei que os dez anos de intervalo entre uma e outra me fizeram entender que teatro é coisa de criança. Principalmente. Eis um belo roteiro.
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Só sei que foi assim.

domingo, 4 de outubro de 2009

Agenda

Anote aí:
06 de outubro de 2009 - 19h30
Workshop Por uma Política da Criança Intérprete
Ministrante: Daniel Martins
Local: Faculdades Anhanguera (FAC) campus Limeira
Semana de Letras e Pedagogia
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07 de outubro de 2009 - 21h30
Espetáculo Macbeth, de William Shakespeare
Dirigido por Daniel Martins
Com os alunos do Projeto Núcleo de Vivência Teatral de Iracemápolis
Local: Faculdades Anhanguera (FAC) campus Limeira
Semana de Letras e Pedagogia
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27 de outubro de 2009 - 21h30
Espetáculo Macbeth, de William Shakespeare
Dirigido por Daniel Martins
Com os alunos do Projeto Núcleo de Vivência Teatral de Iracemápolis
Local: Faculdades Anhanguera campus Santa Bárbara
Semana de Letras e Pedagogia

anger is an energy
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Curtas e Baixas de Guerra

1. A maior inimiga do Núcleo de Vivência Teatral em 2009 foi, sem dúvida, a gripe suína. Como se não bastasse as férias forçadas dos alunos, tivemos que interromper as atividades por um período de duas semanas; e, agora, por tabela, somos obrigados a readaptar os nossos horários em virtude das reposições de aula que acontecem aos sábados. Má Influenza. Após esse longo intervalo, fizemos um primeiro reencontro (agora quinzenal) do elenco de Macbeth – um ensaio corrido e derrapado por esquecimentos constantes de falas e marcações. Pudera: a última vez que apresentamos este espetáculo foi a histórica sessão no CEAC, em maio. A ferrugem dos pequenos é grande. Mas, como diria meu amigo e parente Seu Joãozinho Bem-Bem, é "ferrugem em bom ferro".
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2. A Thaís, uma das novas promessas do Núcleo em 2009, mudou de cidade e teve que se afastar da montagem de Matraga. Fiquei sem uma lavadeira. Sem hesitar, liguei prontamente para a Baby, que topou fazer o papel na mesma hora. Com ela não tem tempo ruim. A peça não sofreu prejuízo, mas a Thaís vai fazer falta...
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3. E a Baby comunicou oficialmente a sua ausência (bem como a ausência de seu irmão) no encontro do último sábado, quando faríamos o único e principal ensaio de Macbeth antes da reestréia. Sem Lady Macbeth e sem Macduff? Bufei de raiva, me enfureci, contei até dez. Ou vinte. Mas então me lembrei de um episódio semelhante, no ano passado, com a Jami-Jami, que também faltaria em uma apresentação e pelo mesmo motivo – algum acampamento evangélico com crianças da sua idade. Depois, quando a ficha caiu, senti vergonha de meu terrorismo enrustido. Bosta. São crianças, precisam passear, se divertir! Céus. A participação delas no grupo não é um trabalho, mas uma vivência. De repente, me senti como o artista de "O retrato oval", de Poe, pintando forçosamente sua amada, que padecia enquanto posava, movida unicamente pelo amor inexplicável que sentia por ele.
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4. Enfim, ausências me deixam triste. No ensaio de terça amarguei nada menos que oito faltas. Oito atores a menos! Mas o que posso fazer? Esbravejar, claro, para mostrar o quanto o espetáculo é importante para aqueles que se fizeram presentes. Mas também compreender que a presença ou ausência dos pequenos não decorre de um vínculo material (pra não dizer financeiro – palavra-chave para os adultos), e sim de uma ligação afetiva com o teatro. A responsabilidade deve nascer daí. E liberdade implica responsabilidade.
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5. No início do segundo semestre, pedi gentilmente para que os atores me comunicassem, na medida do possível, mudanças drásticas de aparência. É óbvio que não vou proibir ninguém de cortar o cabelo (embora tenha feito campanha a favor do cabelão em 2008, durante a montagem hippie de O Mágico de Oz), apenas gosto de ser informado e de me preparar psicologicamente com antecedência caso alguém apareça visivelmente modificado. Até hoje, com a exceção dos longos cabelos lisos da Baby e dos quilos a mais do Cesinha, nada havia sido tão impactante. Ninguém fez cirurgia plástica no nariz nem tatuagem na testa. Porém, no último mês, dois atores essenciais de A hora e vez de Augusto Matraga – a saber, Cleitinho e Dani-Dani – apareceram com o sorriso metálico! O que eu posso fazer? Nada, claro! Faz parte, eu mesmo usei aparelho fixo por cinco anos, na adolescência. Resta torcer para que essa fase (fase chata, diga-se) passe bem rápido para os dois. Torcer..., e lamentar o sorriso futurista nas bocas de Dionóra e Joãozinho Bem-Bem. Snif.

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6. A título de curiosidade, eu tenho duas atrizes hoje que revelam amplo domínio sobre o tempo da cena: Vandi e Dani-Dani. É bem verdade que o Cleitinho está chegando perto. Em todo caso, fico besta de ver como os pirralhos supracitados não têm medo do silêncio em cena, e sabem conduzir a atenção do público por longos minutos sem titubear. Baby, Matheus e Felipinho estão em processo. Ainda falam rápido algumas vezes (devagar, Matheus!!) e revelam a incontida pressa de acabar logo a cena. Mas estão trabalhando cada vez mais para controlar isso. No último sábado, iniciei alguns exercícios com Matheus nesse sentido.
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7. Os pequenos shakespearianos foram tão pressionados com relação à pronúncia correta das palavras que hoje parecem revelar algum trauma a respeito. E, não sem uma ponta de estranhamento, me vêem hoje incentivar pequenos crimes gramaticais em A hora e vez de Augusto Matraga, peça de ambientação tipicamente sertaneja. Algumas pequenas confusões de Cleitinho – nosso jagunço Joãozinho Bem-Bem –, que troca "perebenta" por "esfurebenta" e "gorando" por "gonorando", são verdadeiras preciosidades em uma adaptação cênica de Guimarães Rosa. A inversão das palavras, inclusive, é incentivada menos pela ambientação rural da estória do que pelos preceitos do autor estudado. Rosa sempre foi um reacionário da língua e poderoso adversário das leis cegas da gramática. Mal sabem meus pequenos que essa troca involuntária de vocábulos consiste em um dos pilares da prosa deste escritor mineiro, eterno e impiedoso inimigo do lugar-comum e dos comodismos engessados da língua portuguesa. Vibro internamente cada vez que ouço uma pérola de Cleitinho: "Tô rindo de graça não!" (no lugar de "Não achei graça de nada não!") ou "Você sabe que as asas dos nossos anjos se bateram, não é?" (no lugar de "Você sabe que os nossos anjos da guarda se bateram, né?"). Quase que sem querer, a molecada acaba corrigindo o Cleiton durante os ensaios. Eu interfiro desesperado:
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– Gente, pelamordedeus, deixa o Cleitinho falar do jeito que ele quiser!
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– "Mas, professor, tá errado."
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– Não tem problema, tá perfeito.
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Ninguém entende nada.
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8. Santo de casa não faz milagre. Macbeth não foi aprovado no Festival Nacional de Teatro de Limeira. Posso botar a culpa no nosso vídeo, que não é dos melhores. Posso botar a culpa em quem viu (ou melhor, em quem não viu) o vídeo: o júri – e que padece no velho preconceito do teatro com "criancinha". Posso culpar minha excentricidade visionária que inscreveu o espetáculo na categoria adulto (como se houvesse outra categoria mais apropriada...). Posso jogar a culpa para todos os lados. Mas a verdade é uma só: santo de casa não faz milagre. E nem o santo da casa do vizinho! Eu sempre quis que o suor dessas crianças fosse encarado como um trabalho artístico; mas, para minha triste constatação, ele sempre será pejorativamente rotulado de "assistencial". Mas calma! Sem chorar, meu povo! Não é motivo para tanto. Meses atrás nem Bate-Pau conhecia a gente! E hoje já estamos entre os 100 melhores grupos de teatro de Iracemápolis da última semana.
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9. Quarta-feira tem ensaio secreto de Macbeth – tô parecendo técnico de futebol, que marca treino secreto e esconde a escalação. Quinta os pequenos vão assistir a O auto da compadecida, montagem patrocinada pela Usina (ainda quero que eles vejam As Patacoadas de Cornélio Pires, que será uma referência ainda mais fundamental, apesar de tratar do caipira paulista...) Um dia antes tem O Mágico de Oz no Sertão, também com apoio da Usina, mas que não vai ser possível comparecer devido ao horário. Dia 06/10 darei um workshop sobre as atividades do Núcleo, na Unianhanguera; e, no dia 07/10, teremos apresentação de Macbeth, também na FAC. Dia 27 voltamos a apresentar no campus de Santa Bárbara.
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10. Fiz a primeira visita a um brechó, a fim de conseguir matéria-prima para o figurino de Matraga. Foi assim que conheci o Bazar da Benê, point obscuro, mofado e claustrofóbico de Iracemápolis que vende roupas mais velhas que a própria cidade. Uma montanha de roupas, amontoadas, sem cabide. Nenhuma janela. O cheiro do lugar era inconfundível: bosta de gato. Um cheiro insuportável de cocô felino. Procurei pelas fezes em todos os lugares, mas tudo o que encontrei foram os gatos. ai. Em todo caso, meus sinceros agradecimentos à Dona Benê pelas roupas. Serão de grande valia. Amanhã, Rose e eu vamos visitar mais alguns Brechós. Sorte pra nós.